COLUNA

Top Pipoca com Pedroka

Pedro Martinez

Green Book: dá zero pro preconceito...

Road trip

27 JAN 2019 09h53min

O tal do "baseado em fatos reais" é o chamativo número um pra trazer mais espectadores para a sala do cinema. Seja com livros, séries ou filmes esse é, sem dúvida, o caminho mais fácil para não haver descrença nos fatos apresentados ali.

E Green Book - O Guia é um caso que se encaixa nessa característica do selo história real. O foco principal do longa, indicado a várias categorias do Oscar de 2019, é uma narrativa sobre aceitação de si mesmo e do outro. Acompanhamos nele a viagem de um famoso pianista, Dr. Don Shirley (Mahershala Ali) que é doutor em música e psicologia, e seu motorista recém contratado Tony Vallelonga (Viggo Mortensen), rumo a uma viagem ao sul dos EUA durante a época da segregação racial.

O título Green Book é referência a um guia de viagem, uma espécie de Guia 4 Rodas, criado na época, que indicava os hotéis e restaurantes em que afro-americanos seriam aceitos.

A dupla têm personalidades completamente antagônicas: Shirley é um músico muito sofisticados e inteligente enquanto Vallelonga é um italiano grosseirão e simples. Nessa "road trip" os dois são obrigados a vencerem preconceitos, evoluirem e no fim acabam por criar uma amizade e vínculo improvável.

A nossa crença na veracidade desses eventos, criada pelo "fatos reais", adiciona um Q a mais no quesito esperança e até alívio de quem assiste - o filme nos faz acreditar que sim, é totalmente possível acreditar que o ser humano sempre pode se transformar positivamente.

- Pedroka, mas então esse filme, pela veracidade da história, pode ser considerado uma obra documental que retrata a época?!

Não, não.

Não existe intenção alguma, seja no tom dos diálogos, na fotografia e na trilha  sonora, em criar uma estética de documentário. Longe disso. O diretor sempre deixa em aberto o apelo mágico dos fatos e ganha forte consistência pelas atuações extremamente carismáticas de Mahershala e Viggo. A brutalidade do motorista se mescla a austeridade do pianista em situações cômicas e dramáticas as quais o filme extrai bem a verdade. É o retrato de como dois homens completamente diferentes aprendem a conviver em um país que até hoje tem problemas com a questão racial e não captou a lição.

Você vai estranhar Viggo Mortensen, o aclamado Aragorn, com 20 quilos a mais, porém seu talento é exaltado ao conceber um Vallelonga num arquétipo de brutamontes que aos poucos começa a se tornar tão complicado quanto Shirley. Acredite. Há um pouco de doçura na ignorância do motorista e isso aos poucos vai conquistando a confiança do pianista. E falando da atuação de Mahershala Ali, vencedor do Oscar, ele percorre uma caminho inverso: desconstrói Dr. Shirley. No começo é um tanto arrogante por não se encaixar na sociedade, tendo muito talento porém a cor errada. Mas com o tempo seu pedestal vai caindo quando ele aceita a si mesmo. Temos assim, no filme, por conta dessas atuações extraordinárias, uma extração mais digna de humor simples e certeiro. O ser humano é sim muito complexo mas seus desejos são simples - queremos amor, reconhecimento e aceitação, e é nisso que os dois encontram caminho em comum para uma evolução que precisa antes ser individual para enfim se tornar coletiva.

A sociedade é, sem dúvida, a consequência de seus indivíduos.

5 pipocas!

Disponível em cartaz nos cinemas e concorrente a vários prêmios no Oscar 2019.

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