COLUNA

Top Pipoca com Pedroka

Pedro Martinez

Vice: na surdina...

Ganância e poder

7 FEV 2019 09h23min

Nesse nosso mundo tão assolado pelas guerras e disputas políticas acirradas, pouca gente deve se lembrar de Dick Cheney, o vice-presidente dos EUA na gestão de George W. Bush.

Vice é o novo e inspirado filme do produtor e roteirista Adam McKay, que resgata esse nome literalmente das sombras para demonstrar a tamanha importância que teve, apesar de ninguém ter notado. O filme destacará, desde o início, que esta foi uma figura discreta - discreta mesmo, mas foi alguém altamente determinado e digo letal, se considerarmos os resultados de sua política externa dos EUA.

O longa está indicado a 8 Oscars, incluindo melhor filme e melhor direção, e escancara a ambiguidade desse político - tudo isso interpretado pelo camaleão Christian Bale que ficou irreconhecível com a maquiagem excepcional em um papel repleto de acidez, ironia e criatividade.

- Conta essa história aí, Pedroka!

O começo de vida de Dick Cheney não foi nada promissor; ele foi expulso da Universidade de Yale e acabou mergulhando na bebida, perdendo totalmente o rumo. Mas foi salvo pelo ultimato da sua noiva, Lynne Vincent (Amy Adams), uma mulher com personalidade de ferro que será, ao longo da vida do marido, uma parceira à altura de suas ambições de poder inesgotável.

Cheney se tornou assistente do deputado republicano de Illinois, Donald Rumsfeld (Steve Carrel) e entrou de vez nos bastidores do Congresso durante o nebuloso governo de Richard Nixon. Sendo humilde e muito aplicado, absorveu os complicados mecanismos que o sustentariam, no futuro, de sua impressionante ascensão não só na política mas em sua vida profissional. Mas quando Rumsfeld foi exonerado do governo - porém salvo por impeachment, Cheney decidiu partir para iniciativa privada e se tornou um executivo bastante implacável e de sucesso na empresa Halliburton - que acabaria lucrando, e muito, durante a Guerra do Iraque.

A quantidade de eventos e nomes movidos pela ganância, que assolam esse tema, chega a nos dar tontura de tanta falcatrua envolvida. E isso é o propósito do filme. O diretor quis realmente reproduzir a avalanche de notícias que assolou as telas da TV e que pela incompreensão dos atos fez muitos perderam simplesmente a vontade de tentar entender esse rolo compressor.

É justamente nessa falência de sentidos temporária que os piores manipuladores da política entram em nossa vida, transformando-as radicalmente.

Dick Cheney convenceu o fraco presidente George W. Bush (Sam Rockwell) a dar-lhe as rédeas das Forças Armadas e da política externa, podendo transformar-se assim em um grande monstro sem coração.

Este filme parece e é o traço humano de um homem moldado pela ambição política, pelo apego ao poder e uma sombria determinação em momentos cruciais da história americana, como por exemplo a Guerra do Iraque, a qual ele foi um dos mais ferrenhos defensores e principal artífice.

Vice é uma fisgada dura e real dessa máquina de poder que é a presidência dos EUA, que pode mudar drasticamente os destinos de todo o mundo, causando desastres e mortes em massa de seus próprios cidadãos e tantos outros. Nesses tempos de guerra acabada por ser um honesto aviso: poder é perigoso dependendo de quem o têm. Cuidado!

4 pipocas pela complexidade do tema, não compreendido por quem não entende a história norte-americana.

Em cartaz nos cinemas.

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