Contra reformas de Temer, presidente da CUT-MS acredita que população 'acordou para lutar'

'Fizemos greve com Lula, Dilma e agora Temer' diz Genilson Duarte. Sindicalista também afirma que entidade é contrária ao imposto sindical

1 MAI 2017Amanda Amaral13h48min
Foto: André de Abreu

Em meio às discussões sobre as reformas trabalhista e da previdência, em andamento no Congresso, e a megaparalisação nacional que ocorreu na sexta-feira, 28 de abril, a reportagem do TopMídiaNews conversa com o líder regional de uma das principais entidades a frente do movimento, maior central sindical da América Latina, com 3.806 entidades filiadas, contra a aprovação das medidas. Em Campo Grande, a greve geral reuniu cerca de 60 mil pessoas nas ruas, conforme organizadores.

Presidente da CUT-MS (Central Única dos Trabalhadores em Mato Grosso do Sul) desde 2013, com mandato que segue até 2019, Genilson Duarte avalia o protesto como um sinal de que a população se preocupa em perder direitos adquiridos. Na entrevista, Duarte comenta sobre as críticas ao movimento da central sindical, conquistas e perdas ao longo de mais de trinta anos desde sua criação. Leia abaixo:

Como a CUT vem se organizando em Mato Grosso do Sul frente às discussões sobre as reformas?

Nós nos organizamos primeiro em defesa à democracia, isso a CUT sempre fez, independente de governo, nós sempre fizemos as lutas. Fizemos greve com Lula, fizemos greve com Dilma, luta com Lula, luta com Dilma, agora com Temer. Então, para nós não tem esse negócio de governo, sempre fizemos as lutas que foram necessárias para defender interesses da classe trabalhadora. Mas mais forte, no primeiro momento, para defender a democracia, defender o voto da maioria da população - gostando ou não gostando, mas respeitando.

A greve se dá em meio a esse golpe [impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff], que hoje vemos ainda mais que se trata de um. Não é um golpe simplesmente de 'tira governo, põe governo', é um golpe contra os nossos direitos. A classe empresarial do nosso país quer que nossos direitos passem por um retrocesso: que a gente não tenha direito de se aposentar, que não tenhamos certos direitos, que lutamos para conseguir. São vários, o 13º salário, por exemplo, férias, dentro de um critério que possibilite ao trabalhador proporcionar uma vida mais próspera a sua família.

A reforma trabalhista permite que o seu patrão divida seu 13º em doze vezes, por exemplo, então acabou mesmo. As pessoas e o próprio empresário só vão perceber a consequência real da mexida em seus direitos lá na frente, quando o comerciante não conseguir vender no Natal.

Além das pessoas que estão dentro dos sindicatos, como enxerga o envolvimento da população sobre essas propostas?

Hoje já se percebe que as pessoas estão mais preocupadas, envolvidas. Lá atrás a gente dizia, alertava sobre esse golpe em cima de nossos  direitos, mas muitos trabalhadores não conseguiam enxergar isso. Mas na greve geral, o número de pessoas que se viu nas ruas de Campo Grande é histórico, estou no movimento sindical há 30 anos e nunca tinha visto isso, calculamos cerca de 60 mil pessoas participando.

As centrais sindicais convocaram, mas a participação foi espontânea, feita pelos trabalhadores comuns, a população acordou para lutar. Essa foi a única coisa boa que teve, a união, porque colocou todo mundo junto pra uma manifestação só, todos envolvidos.

Uma crítica que se tem sobre a CUT e outras centrais sindicais estarem à frente das manifestações cita um dos pontos da reforma trabalhista, que é o fim da contribuição sindical obrigatória. Isso tira parcela da legitimidade do movimento?

À classe política que tem dito isso, que nós defendemos próprios interesses, temos uma resposta muito tranquila sobre. A CUT nasceu há 32 anos e já contrária ao imposto sindical. Nós entendemos que os trabalhadores têm que financiar a sua luta sim, mas são eles que têm que decidir a forma de arrecadação para fazer a luta em defesa e conquista de seus direitos. Para nós, esse discurso não pega, não reflete em nada, vamos continuar sobrevivendo.

Mesmo que haja, se aprovada a reforma, impacto significativo nessa arrecadação?

Sim, com certeza. Afinal, os sindicatos que foram às ruas hoje não foram simplesmente para se defender, mas sim porque entendemos que esse ponto da reforma, se só ele fosse aprovado, não afetaria tanto assim a vida dos sindicatos. Mas sim os demais pontos, o fim de vários outros direitos, a jornada de trabalho exaustiva, tantas outras coisas. Isso não é modernidade, é retrocesso.

Os sindicatos de manteriam como já é feito hoje, através da contribuição dos filiados, que decidem contribuir e autorizam o desconto em seu contracheque durante todos os meses. Mas existe o imposto sindical, que é para todos e, inclusive, o governo se beneficia disso, porque 5% do que é arrecadado fica retido para ele.

Outra questão que sempre é relacionada à CUT é sua ligação com o governo petista, então, suas pautas são geralmente tratadas como governistas, apesar da entidade se dizer apartidária. Com o envolvimento do partido na Operação Lava Jato e o impeachment de Dilma, acredita que a central tenha perdido força?

Não, isso é o que querem carimbar a gente, mas a CUT hoje em sua direção tem todas as formas de pensamento, e por isso a gente briga muito internamente, pela divergência de ideias que existem dentro da central. É lógico que defendemos o modelo político que diz que no Brasil é preciso se ter partidos políticos e nossa vida é decidida a partir da política, não tem como. Mas a CUT não tem ligação nenhuma com qualquer tipo de governo, fizemos e vamos fazer luta com qualquer que seja o partido no poder.

E em seu tempo de atuação sindical, qual o balanço de perdas e conquistas de direitos do trabalhador?

Acho que avançamos muito. Venho de um tempo que a gente ocupava as ruas e manifestações grandes e greves por salário mínimo de, no mínimo, 100 dólares. A gente conseguiu provar pra classe política que esse valor não quebraria o país, e o salário chegou a 380 dólares. Agora sofremos um retrocesso, mas há muitas conquistas sim. Por isso vamos de novo para a rua, lutando para que esse retrocesso que está sendo proposto não crie um futuro de mendigos e volta da escravidão.

Quais os desdobramentos futuros contra as reformas?

Vamos continuar na rua, as centrais vão voltar a se reunir e definir novas batalhas. Embora a gente ache que as manifestações tenham mostrado a força do povo à classe política, isso pode não ser suficiente para mudar seus votos. 

HMEDIC

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