Quatro décadas de pauta: jornalista acumula experiência e relembra época de ouro no esporte de MS

O repórter já foi humilhado, deu a volta por cima, virou editor e narrador de esportes na Capital

5 MAR 2018Dany Nascimento09h52min
Foto: André de Abreu

Já imaginou passar por um teste, se tornar jornalista e desempenhar a função por 41 anos? Arlindo Florentino, 61 anos, começou a desempenhar as atividades como repórter na Capital há quatro décadas, fez parte dos títulos mais marcantes dos times de Mato Grosso do Sul e depois migrou para a editoria de polícia, onde se apaixonou novamente.

A primeira experiência foi durante um treino do Comercial que abriu as portas da profissão para Florentino, que já percorreu o país como jornalista e narrador de partidas esportivas. Mas, um fato que ainda mexe com o coração do repórter, que hoje em dia é evangélico mas continua respeitando o catolicismo, foi a passagem do Papa João Paulo II por Campo Grande.

“Marcou a minha história, foi muito emocionante, acompanhei a passagem dele, fiquei a 10 metros do Papa e isso foi muito bom. Eu cobri partidas de quando o esporte era muito valorizado na Capital, quando o esporte era bonito de ver e não como a cena que registramos recentemente, com jogador agredindo gandula no final da partida”, afirma Arlindo.

Confira abaixo a entrevista completa:

TopMídiaNews: como começou a desempenhar as primeiras atividades como jornalista?

Arlindo Florentino: tudo começou na rádio Educação Rural, foi meu primeiro emprego como jornalista. Um determinado dia me informaram que lá precisava de repórter, na época eu estudava o cientifico, depois do segundo grau tinha cientifico. Cheguei lá, ele perguntou se eu já tinha entrevistado alguém, se sabia mexer com gravador, eu nunca tinha feito. Falou pega esse gravador, vai lá no campo do Comercial e me traz notícia. Tinha treino do Comercial no dia. Daí comecei como repórter.

O engraçado é que, na minha época, quando você ia fazer treino, tiravam a sua voz e deixavam montadas só as respostas dos entrevistados. Quando eu falava para meus amigos que trabalhava na rádio, ninguém acreditava porque não aparecia minha voz.

TopMídiaNews: qual avaliação faz por trabalhar diretamente em uma rádio?

Arlindo Florentino: fiquei seis anos lá. Eu considero o rádio como a verdadeira escola do jornalismo, no rádio você aprende a improvisar, aprende a ser mais rápido com raciocínio. Então eu tive a felicidade de começar no rádio, na época era só AM, depois apareceu a Canarinho, aí só tinha TV Morena.  

Quem trabalhava no rádio, na época, era estrela. Para se ter uma ideia, eu dava autógrafo no Morenão depois de uns três anos. Comecei esticando o fio para os repórteres famosos, aos poucos eu fui ganhando espaço, entrei para fazer reportagem. Eu cheguei a narrador esportivo do rádio e, ao mesmo tempo, eu tive a experiência do jornal.

TopMídiaNews: como foi a primeira experiência com jornal impresso:

Arlindo Florentino: um amigo que trabalhava na rádio falou para fazer um teste no jornal impresso, que na época era o Correio do Estado. Minha primeira experiência como jornalista, comecei a fazer texto, passando quinze dias, o rapaz falou que um editor do Correio do Estado queria falar comigo. Ele perguntou se eu que escrevi a matéria, perguntou se alguém me ajudou, falei que escrevi sozinho e ele respondeu: 'ainda bem porque está uma porcaria, o papel só serve para limpar a mesa e jogar no lixo'.

Primeira experiência foi essa, mas sou tranquilo, tirei como lição. Continuei no rádio até que surgiu uma chance no Diário da Serra e fui trabalhar lá. Mesmo processo de aprendizagem, cheguei a editor de esportes nesse trabalho. Nessa época, o mesmo dono do jornal impresso falou que queria me contratar, não sabia que eu era o cara que escrevia. Ele me chamou, olhou e falou: 'você que está editando?', eu disse sim, aprendemos na vida. Fui contratado, fiquei 28 anos trabalhando lá. Não guardei mágoa, aquilo me serviu como alerta para algo que não estava certo.

TopMídiaNews: como foi seu desempenho à frente do cargo?

Arlindo Florentino: trabalhei ao mesmo tempo no Correio do Estado e na TV Campo Grande. Oito anos depois eu assumi a editoria, fui tocando o barco por mais 20 anos. Fiquei uns 15 anos como editor e trabalhando na TV Campo Grande, fiquei 14 anos. Teve um corte na TV, daí fiquei só no Correio.

TopMídiaNews: qual a sensação ao encerrar um trabalho de 28 anos em uma empresa

Arlindo Florentino: saí do Correio com 28 anos de trabalho, foi algo inesperado e, nesse período, eu trabalhei na CBN e o rádio continuava, teve uma época que trabalhei nos três, de manhã em um, a tarde outro e rádio durante a noite. Deu para aprender bastante e assim foi minha vida. O chão desapareceu quando saí do jornal, foram 28 anos. Janeiro terminei casamento de 16 anos, três meses depois eu fui demitido. Com a separação, eu que morava em casa boa, fui morar em um quarto com banheiro, fui demitido, era para pirar. Mas aí surgiu emprego na TV Record, fui cobrir férias, fiquei um mês, mas era produção e eu sou de rua.

TopMídiaNews: quando começou a trabalhar com editoria de polícia?

Arlindo Florentino: Depois de tudo isso, o jornal Midiamax me chamou, aí que teve mudança, era meu primeiro online e eu estava acostumado com impresso, que faz hoje para ver o resultado amanhã, já o online é acelerado. Me chamaram, falaram que teria um teste de 10 dias, se achasse que ia bem continuava, se eles achassem que não, íamos parar. Comecei fazendo geral, mas o editor me chamou e disse que estava sendo mal aproveitado, me chamou para fazer polícia. Eu me reinventei, foi uma motivação a mais e consegui abrir um bom campo na polícia.  São 41 anos de carreira, 35 fazendo esporte e seis anos fazendo polícia. Esse tempo na polícia apagou o esporte, me identifiquei com polícia.

TopMídiaNews: tem interesse de voltar a cobrir eventos esportivos?

Arlindo Florentino: hoje em dia eu não gostaria de voltar para o esporte, eu gosto, mas não me atrai mais, principalmente porque nosso esporte não evoluiu nada. Eu peguei 1977, Operário terceiro colocado do campeonato brasileiro, daí você vê o que aconteceu aqui: um Comerário com jogador agredindo gandula. Eu peguei o Morenão com 34 mil pessoas.

TopMídiaNews: quais foram as experiências mais marcantes em 41 anos de carreira?

Arlindo Florentino: foi essa questão de acompanhar o Operário e Comercial. Eu percorri o Brasil inteiro, mas como sempre falo, hoje sou evangélico, mas nem por isso perco o respeito, o que me marcou mesmo foi aquela passagem do Papa pela Capital. Primeiro os preparativos para ver uma autoridade mundial, só de estar a 10 metros dele é algo muito valioso e eu tive essa oportunidade. Acompanhei a passagem dele, que foi um marco na minha história.

TopMídiaNews: como pontua as principais dificuldades de trabalhar como jornalista?

Arlindo Florentino: fica difícil se você não tiver fonte, a primeira dificuldade é fazer as fontes, modéstia à parte, nesses anos eu fiz muitas fontes. Uma coisa interessante é que, quando eu fazia esporte, as minhas principais fontes eram os massagistas e os roupeiros, eles que estão direto com os jogadores. O cara machucado passa pelo massagista, chegava cara novo, o roupeiro sabia que ia ter, então eu conquistei a confiança dessas pessoas. São pessoas humildes, que ajudam muito.

TopMídiaNews: qual clássico considera mais marcante?

Arlindo Florentino: Brasil e Paraguai foi um jogo que marcou minha carreira, Falcão era o técnico e o Neto que era um dos craques. Foi com Morenão Lotado, jogo marcante. Palmeiras e Operário também foi muito bom, foi a maior renda do Morenão, com 34 mil pessoas.

* Matéria alterada às 11h58.

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