O ministro enriqueceu: Salles não tinha dinheiro para pagar pensão, mas agora tem 9 milhões de reais

Ministro do Meio Ambiente é pedra no sapato do presidente Jair Bolsonaro

11 JAN 2019Filipe Coutinho/Crusoé09h03min
Foto: Facebook/Reprodução

Em 2013, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, era figura do segundo escalão na política de São Paulo quando foi à Justiça para reclamar do valor da pensão que deveria pagar aos dois filhos pequenos. Seu patrimônio, no ano anterior, era de 1,4 milhão de reais.

Ele usou dois argumentos para convencer o juiz. O primeiro, que seus honorários como advogado estavam em franca decadência. O outro era que, naquele ano, seu salário no cargo de secretário particular do então governador Geraldo Alckmin era de parcos 12 mil reais. Salles explicou que, assim, não conseguiria pagar 8,5 mil reais de pensão.

Nos anos seguintes, porém, ele avançou em três frentes. De pai com dificuldades financeiras, ascendeu na política, acumulou suspeitas (e uma condenação) e fez fortuna. Seu patrimônio chegou a 8,8 milhões de reais no ano passado – mil vezes o valor da pensão. Na ponta do lápis, o ministro de Bolsonaro enriqueceu mais de um milhão por ano. Em cinco anos, o político e advogado que não podia pagar 8 mil reais de pensão ficou rico.

A ficha de processos de Ricardo Salles é extensa, e não é preciso ir longe para descobrir seu tamanho – em sua própria defesa, ele diz que os processos decorrem da perseguição de um velho inimigo. Candidato derrotado a deputado federal em 2018 pelo Partido Novo, o ministro teve que apresentar uma certidão repleta de ações.

Como não foi condenado em segunda instância, ele não é ficha-suja, mas o extrato entregue à Justiça Eleitoral lista onze procedimentos abertos desde 2017. Há, no rol, acusações das mais diversas: advocacia administrativa (por essa razão eram seis processos, depois reunidos em um), crimes contra o patrimônio, coação, formação de quadrilha e falsidade ideológica. Como as ações tramitam em segredo, não é possível saber seu atual estágio. À Vara de Família, o ministro alegou que não podia pagar a pensão estipulada.

O caso mais notório envolvendo o ministro virou condenação no fim do ano passado, na esfera civil. Para a Justiça de São Paulo, Ricardo Salles deve ter seus direitos políticos suspensos por três anos e pagar uma multa equivalente a dez vezes o salário que recebia como secretário de governo. Cabe recurso e, por isso, o processo segue em aberto.

O ministro foi condenado por atropelar regras internas para atender a demandas da Federação das Indústrias de São Paulo, a Fiesp, que defendia a liberação de projetos de mineração em uma área de preservação do rio Tietê. À Justiça, ele sugeriu “desapego ideológico” ao tratar de demandas ambientais.

Levou uma bronca do juiz Fausto Seabra na sentença: “A defesa do meio ambiente equilibrado é obrigação de todos e, em especial, dos agentes públicos que juram cumprir a Constituição Federal e as leis, independentemente de sua orientação política à direita, esquerda ou centro”.

Dentro e fora de órgãos públicos, o atual ministro acumulou polêmicas com a esquerda – algo que o torna especialmente valioso para Bolsonaro. Fundador do movimento “Endireita Brasil”, ele defende que guerrilhas comunistas, e não só os militares, cometeram crimes durante a ditadura.

Depois da tentativa de obter uma cadeira de deputado federal, ele foi acusado de abuso de poder econômico e de fazer propaganda antecipada. Apareceu em propagandas publicadas em jornais antes do período eleitoral que mais pareciam peças de campanha. Por isso, a Procuradoria Eleitoral quer que ele fique inelegível por oito anos. Na área ambiental, minimizou a discussão sobre aquecimento global e, já como ministro, defendeu a construção de ferrovias em áreas de preservação ambiental.

Salles foi o último ministro a ser indicado por Jair Bolsonaro, em dezembro de 2018. Menos de 30 dias desde que ele foi anunciado como integrante do primeiro escalão do novo governo, já protagonizou duas situações que geraram desgastes para o presidente. A primeira foi a própria sentença no processo de improbidade, que deixou para Bolsonaro, a duas semanas da posse, a carga de manter em sua equipe um ministro condenado, a despeito de seu discurso em favor da ética.

Já com seis dias no ministério, Salles foi ao Twitter para criticar um contrato do Ibama de 28 milhões de reais. Virou mais uma dor de cabeça para o presidente, que chegou a replicar a mensagem do ministro, concluindo que se tratava de um negócio suspeito. Pouco depois, quando vieram as explicações (e elas não permitiam concluir cabalmente sobre a existência de irregularidades), Bolsonaro apagou a postagem.

Hoje, Salles chefia uma das pastas mais delicadas do governo. O Ministério do Meio Ambiente foi, no passado, alvo de diversas críticas do atual presidente e alvo recorrente de parte do setor produtivo que reclama da camisa de força que a exigência de licenças ambientais impõe à economia. A posição no primeiro time da Esplanada dará ao ministro um salário de pouco mais de 39 mil reais. Ainda é pouco perto da fortuna que ele declara possuir. Mas é um valor relevante para quem, até pouco tempo atrás, dizia viver em apuros financeiros.

Em 2014, por exemplo, Ricardo Salles chegou a ser ameaçado de prisão porque devia 28 mil reais de pensão alimentícia. De lá para cá, além do cargo novo, houve outras boas novidades na vida pessoal do ministro. De seu patrimônio declarado de 8,8 milhões de reais, 500 mil reais vêm de uma embarcação. Houve ainda o acréscimo de dois apartamentos que, juntos, ele diz valerem 6 milhões de reais. O restante se divide entre dinheiro vivo e aplicações financeiras. Procurado, o ministro afirmou que todo o seu patrimônio é declarado e resultado de seu trabalho como advogado.

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